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Como manifestantes de Hong Kong usam Tinder, Uber e Pokémon Go para organizar protestos e fugir da polícia
Manifestantes dizem que o uso de fóruns e aplicativos ajuda a evitar que eles se tornem alvo de repressão — Foto: Getty Images

Como manifestantes de Hong Kong usam Tinder, Uber e Pokémon Go para organizar protestos e fugir da polícia

Desde junho, região autônoma chinesa vive onda de protestos em que seus jovens participantes recorrem a fóruns online e aplicativos para organizar comícios e escapar da repressão

access_time15/08/2019 10:29

No final de julho, manifestantes em Hong Kong que voltavam de um protesto foram atacados por um grupo de homens vestindo camisas brancas. Logo depois, anúncios anônimos apareceram na internet pedindo que as pessoas saíssem em massa para caçar pokémons em uma cidade onde os suspeitos haviam se reunido uma semana antes.

"Se disséssemos que iríamos a um protesto não autorizado, isso teria dado evidências à polícia contra nós", diz KK, um manifestante de quase 20 anos que pediu que sua identidade não fosse revelada.

Milhares de manifestantes se reuniram no local, reconhecendo que o jogo Pokémon Go - em que os jogadores podem travar batalhas virtuais uns contra os outros em locais do mundo real - foi usado para reunir pessoas para um tipo muito diferente de embate. Multidões acabaram sendo dispersadas com gás lacrimogêneo enquanto a polícia e manifestantes se enfrentavam no final da noite.

"As pessoas pensam em maneiras criativas de reunir pessoas. Vamos 'jogar' Pokémon Go ou participar de 'grupos de leitura da Bíblia' ou 'tours de história'", acrescenta KK.

Uber para escapar da polícia
As manifestações em massa contra uma lei de extradição - agora suspensa - começaram em Hong Kong em junho e evoluíram para uma onda de protestos pró-democracia.

Entre as reivindicações, estão anistia para quem for preso durante os protestos e maior poder de escolha em futuras eleições na cidade, uma ex-colônia britânica que hoje faz parte da China sob um acordo que lhe dá certo nível de autonomia, como ter seu próprio Judiciário e um sistema legal separado.

Desde o início de junho, a polícia prendeu mais de 500 manifestantes. Por isso, eles estão agora buscando formas cada vez mais criativas de realizar comícios e escapar da repressão, como usar o aplicativo de mensagens Telegram e até mesmo o serviço de transporte Uber, programas que se tornaram assim uma parte importante da organização do movimento liderado por jovens.

Os mapas que promovem os eventos de Pokémon Go servem para sinalizar onde protestos serão realizados — Foto: Reprodução/BBC
Os mapas que promovem os eventos de Pokémon Go servem para sinalizar onde protestos serão realizados — Foto: Reprodução/BBC

Em metrôs lotados, os manifestantes enviam anonimamente cartazes via conexões wi-fi e bluetooth entre celulares da Apple para compartilhar horários e locais dos protestos.

"No estágio inicial do movimento, o Telegram era usado principalmente para divulgar informações aos manifestantes, como a posição em tempo real da polícia, as situações em diferentes linhas de frente e o endereço de postos de primeiros socorros e de onde podiam obter máscaras de gás, óculos de proteção, garrafas de água", diz Rob, um universitário e manifestante ativo na casa dos 20 anos.

Agora, explica ele, o programa é bastante usado para chamar um Uber. Os motoristas desativam seu GPS para evitar serem rastreados, já que oferecem corridas para os manifestantes que precisam sair rapidamente de um determinado local.

Motoristas do Uber estão se voluntariando para transportar os manifestantes — Foto: Reprodução/BBC
Motoristas do Uber estão se voluntariando para transportar os manifestantes — Foto: Reprodução/BBC

"Os motoristas voluntários enviam sua localização, destino e número de licença para o administrador do canal [no Telegram]. Os manifestantes podem ver um mapa em tempo real - muitos motoristas de Uber em um mesmo local geralmente sinalizam um ponto de fuga."

Outro manifestante, que pede para identificado apenas como NA7PNQ, diz que recentemente usou um Uber para percorrer vários locais de protesto, pegando manifestantes que precisavam ser "evacuados".

Tinder e fóruns online
O site de notícias Abacus também relatou que um popular aplicativo de relacionamentos foi usado para ajudar a organizar manifestações, como mostra a mensagem abaixo em que um usuário diz: "Estou recebendo informações de protestos pelo Tinder".

Alex, um manifestante que largou o emprego para se concentrar no movimento, diz que não sai de casa sem um smartphone e uma bateria portátil, porque "informações sobre a localização da polícia são fundamentais para chegar ao local do protesto ou escapar".

"No dia da manifestação, faço meu melhor na linha de frente e, nos outros dias, ajudo a rever nossas ações, a divulgar. Temos amigos no exterior que compartilham informações pelo Facebook e WhatsApp. Não fazemos isso por conta própria, porque é muito arriscado", diz Alex.

No protesto, os manifestantes também fazem uso de um fórum online de Hong Kong chamado Lihkg, em que os usuários permanecem anônimos, para organizar tarefas específicas. Rob, por exemplo, se especializou em "anular" as latas de gás lacrimogêneo disparadas pela polícia.

KK acredita que o uso de aplicativos é fundamental por conta da "natureza sem liderança" do movimento.

Os manifestantes dizem que o uso de ferramentas online - que os ajudam a proteger suas identidades - é importante para evitar que eles se tornem alvo de autoridades.

"Todas as pessoas do Movimento Umbrella [uma onda protestos pró-democracia em Hong Kong em 2014] foram presas por incitar as pessoas a protestar. A tendência agora é não fazer isso tão abertamente", diz KK.

E enquanto os manifestantes estão recorrendo a jogos como Pokémon Go para propagar sua agenda, eles também estão subvertendo seu famoso slogan - Gotta Catch 'Em All ("É preciso pegar todos eles!") .

"Não é fácil para a polícia pegar todos os manifestantes, porque eles não são um grupo organizado. Quando a polícia pega um, só pode pegar uma única equipe. Eles não podem pegar todos eles."





Por: Por BBC

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